GR22 – Castelo Novo a Castelo Mendo

2014-05-02 14.30.55

Sonhos antigos, trilhos remotos, vestígios de outros tempos, aventura, teste…

Relato de três dias a andar de bike pelo interior de Portugal, sozinho mas com o precioso apoio da minha esposa.
Devo ter o track do GR22 carregado no meu velho Legend desde 2008. Entretanto já a linha de caminhos-de-ferro da Beira Interior foi desativada… outro contratempo.
Fraca forma física, bicicleta ou era HT ou de enduro… desadequadas para horas a pedalar, sabe-se lá por onde e por quanto tempo.
Este ano e depois de um 2013 de razoável forma, graças a umas valentes voltas na fininha e outras coisas mais, achei que estava na hora de ir finalmente ver o GR22 – Grande Rota das Aldeias Históricas. A Rush montada no final de 2013 parecia ideal, confortável, razoavelmente leve, ágil e divertida.
São 10 etapas, 508 kms em circuito circular que pode ser feito em ambos os sentidos, mas definido para iniciar com a etapa Castelo Novo-Piodão. Escolhi ao contrário, mais fácil e menos extensa, a etapa Castelo Novo-Monsanto.
Plano inicial seria ir de comboio até Castelo Novo, fazer as etapas e apanhar o comboio perto de Castelo Mendo, em Miúzela. Estudo dos itenerários da CP mostrou que era possível, com a condicionante de regressar a um domingo. Bate certo!
Plano alternativo e muito mais simpático, ir com a minha menina (leia-se esposa) que estaria no final de cada etapa à espera numa bela esplanada e já com os locais de dormida definidos… logisticamente também perfeito – oficina no carro e disponibilidade no caso de alguma coisa dar para o torto.
O Legend também foi, para backup. O track foi carregado no novo Sigma Rox10, mas deu jeito no Garmin… começar um percurso circular com base apenas em GPS é sempre complicado, nunca se apanha a direção correta e a vila de Castelo Novo não é de todo um bom ponto para começar esta aventura. Dois tracks parecidos, dois GPS, tinha de dar certo… e ainda tinha o telemóvel.


#1 Castelo Novo-Monsanto
Chegada a Castelo Novo, 13h40 partida depois da foto. Para cima e para baixo à procura de uma direção, nada de sinais, ninguém conhecia o GR22… fui seguindo os GPS. Estrada, cada vez mais longe da Gardunha… inacreditável, uma serra tão pujante e eu a afastar-me… mais estrada… virar à esquerda, finalmente! Entro num acesso em terra batida, pedra solta, mau estado… estou no caminho certo.
Estradões por entre campos de pasto, um ou outro riacho, sempre a pedalar. Vinha com o ritmo da maratona de Alte, o piso era razoável na maioria do caminho e dava para rolar, manter a velocidade, puxar aqui e ali… 150/160 bpm…demais. Sem almoço e com a vontade de pedalar, começo a acusar cansaço pelos 40km. Mas já se vê Monsanto! Monsanto vê-se sempre… O caminho ficava mais acidentado. Foto aqui e ali. Idanha-a-Velha, paragem obrigatória, volta, foto, siga. Mais campos e vedações. Abre o portão improvisado de arame farpado, fecha – são só uns arames para manter o gado dentro.
Este não, de rede, em moldura de tubo de aço, trancado com um cadeado. Mas exibe a rara marca vermelha e branca do GR22. Não há dúvida, é por ali. Passo a Rush, salto a seguir… rasgão no farpado no braço que vai dar cicatriz, toca a subir a pé que é ladeira valente. Foram uns 1200m a pé e depois um olival bem tratado, sem caminho algum. O GPS não deixava dúvida mas não havia caminho.
Para trás, pelo outro caminho, afinal vê-se Monsanto, sem stress. Passa a Rush, com cuidado agora para não rasgar mais nada no farpado. Mais subidas, devagar, 135 bpm, mas já assim custa e a água está a acabar, 5/6km.
Chego lá acima e avisto um aglomerado de casas e uma estrada de alcatrão, abaixo. Não é por ali, supostamente deveria ir mais para nascente mas não vou arriscar mais nada e pode haver água.
Simpáticas senhoras que me encheram a bolsa do camelback e indicaram “é sempre a subir por essa estrada”. Bloqueio o RPL e por ali acima, “granny”. Virar à esquerda, estrada antiga, assinalada. Ainda comecei mas nem pensar. Era uma calçada medieval, no meio de um montado antigo, que sobe a Monsanto pela face nascente do morro. Espectacular, a descer claro, porque a subir só mesmo no inicio de uma volta, mas faz-se, na próxima.
Esplanada, leite com chocolate, dois e uma valente tosta de queijo e tomate em pão rústico. A feira medieval está a começar, há espetáculo hoje. Perfect timming… é só dormir uns minutos….


#2 Monsanto-Sabugal
Balbúrdia na estreita rua de Monsanto, preparativos e arrumações, barulho. Mesmo assim arranco pelas 11h30 para a segunda etapa até ao Sabugal. Hoje vai ser com calma, não posso rebentar a meio e já com os 63km do dia anterior, não sei… e nesta etapa o percurso é mais remoto – Malcata…
Sinto-me muito bem, sair com um belo pequeno almoço é outra coisa. Preparo água e bebida energética que vai na Rush. Estradões, herdades, muito verde, flores minúsculas por todo o lado, paisagem de uma frescura ideal. Entro no Parque Natural da Malcata, o trajeto é praticamente tangencial, estradões divertidos, rápidos, a Rush adora mas o XT shadow ainda não está bem nas mudanças mais pesadas… terá sido da saída de pista ontem a descer antes de Idanha…? Sente-se o remoto dos locais e dos trilhos.
Meimoa, 40km percorridos em bom ritmo mas nas 135bpm. Está a funcionar, sinto-me novo. Recarregar camelback e fazer mais bebida energética que a água é boa. Praia fluvial a testar noutra altura, mais à frente o mesmo rio, belo caudal. Sempre a rolar, subindo o mesmo curso de água até ao paredão da barragem, que atravesso. Os próximos 10km são pelas margens do lago artificial, cheio. As margens envolventes de carvalhos e pinheiros, natureza e ainda mais isolamento… estou mesmo no meio do nada.
Chego à mini-hidrica de Meimão. Subida íngreme, mau piso, que faço a pé para descansar as costas e não passar das 150 bpm. Cruzo-me com três pedestres meios perdidos com um tablet a fazer de GPS… em baixo a vila que atravesso para outra subida brutal, novamente a pé, mas na boa, com tempo, comida e água, hei-de chegar.
Subida, outra, as torres eólicas ao fundo, no outro monte. Estrada de alcatrão. É só para cruzar e subir o monte, pois… para as eólicas. Granny, mais uns metros a pé, sem stress. Vistas incríveis, isolamento habitual. O terreno fica mais plano e regressam os estradões rolantes. Saiu de uma curva, estrada e alcatrão e aparece o castelo do Sabugal, sei lá de onde. Foto, sms, já cheguei, bem, muito bem. E o tal banho na praia fluvial? Vamos lá.


#3 Sabugal-Soito-Castelo Mendo
Coloco o Soito no meio por valer mesmo a pena fazer esta ligação, senão mesmo até Alfaiates. Na realidade vale a pena a ligação toda e concerteza o GR22 todo, mas nestes talvez 20km parece que atravessamos bosques medievais, carvalhos, muros de pedra cobertos de musgos, campos de cereais pelo meio, os castanheiros, cavalos… e a complexidade de uma floresta. Parar e olhar para trás, à volta… dá que pensar. Seta em frente, engano-me mais uma vez, 30 metros para trás e tomo o outro caminho. Mas foi dali que vim…? Funciona bem o ROX.10. Estradões rolantes, descidas com pedras, ribeiros e caminhos inundados – a melhor parte da volta.
Subo para Alfaiates, pergunto pela fonte, oferecem água lá de casa, não sei se do poço se da fonte, “muito boa” e era. Subo aos vestígios do castelo, impressiona. Foto, barra, está calor outra vez.
Mensagem do Tiago Manso “vais entrar na zona mais aberta e rápida”. Estava pelos 25km. Estradões abertos, sobe e desce, divertido. Depois foram quase 20km, a rolar em estradão aberto, bloqueando por vezes o amortecedor tal era o piso. 140/145bpm, a Rush andava rápido, mas já cansava. A paisagem era repetitiva mas impressionante pela mancha de carvalhos que não sabia ainda existir. Mais terrenos de pasto, passo entre eles por caminhos bem definidos. Ao longe a Este a neve de Gredos. A sudoeste a neve da Estrela, menos. Paro, tem que ser aqui porque é uma boa foto, há um marco do GR22 e faço uma panorâmica. Barra, comida, menos de meio de água, 52km.
Freinada, água outra vez na casa de uma residente, não local. Do garrafão. E desço, cada vez mais, rápido, em direcção ao Côa. Entro, como noutras vezes, numa propriedade onde pastam vacas. Os limites, na estrada, são umas grelhas em tubo no chão que aparentemente o gado não atravessa, ladeadas pela vedação. Passo sem sequer travar. Continuo rápido, o strava marca 57km/h, duas vacas à esquerda, uma à direita, queres ver…? E não é que a da direita se põe a correr à minha frente para ir ter com as outras?? Brutal, sem mt stress porque elas são rápidas, pelo menos a fugir… passo novas grelhas no chão e chego a um lago. Não, é um rio, o Côa, está mesmo a acabar. Lá em cima Castelo Mendo, nice. Mas isto é muito largo. GPS, ok, 20 metros à frente, ponte medieval, incrível, fotos, vale fantástico.
Ponte sem saída. Desbravo mas depois da ponte há uma lagoa que parece funda onde desagua um riacho. Muita vegetação. As urtigas dão-me lembranças por mais umas horas… volto para trás. Volto lá. Não dá mesmo. Pelo açude?
É um caudal valente… vamos lá. Água pelo joelho, a Rush a fugir mas apanho e jeito e vamos passando. A meio vejo o trilho já na margem esquerda. Fixo bem os pés, alinho a Rush e ainda dá para uma foto dentro de água. Agora é só subir.
A Xana já estava à minha espera. Arrancámos para Lisboa seriam umas 15h00.

One Comment Add yours

  1. Túlio diz:

    Excelente relato da volta, e belas fotos.
    Por acaso gravaste o percurso que fizeste? era possivel arranjar isso?
    Obrigado
    Túlio Trindade

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